quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si
mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado
de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva,
lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte,
caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é
muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a
quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua
frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser
parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo
de aflição. Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o
gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três
pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim
pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto de
chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou
drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se
acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem
alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a
infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida,
escondida, fugidia ou impossível de durar. Não tem namorado quem não
sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o
filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de
Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar;
de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia
enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem,
cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário. Não tem namorado
quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer
compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor,
nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos
dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem
não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para
parques, fliperamas, beira - d’água, show do Milton Nascimento, bosques
enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não tem namorado quem
não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta
artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem
namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de
semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de
rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem
brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o
outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar
sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si
mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque
não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de
grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de
mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a
alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração
estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua
janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de
contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e
do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola
falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem
namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a
fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.
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